O CAVALEIRO FANTASMA

– Parece que só porque eu vim fazer uma visita, este pântano maldito está deixando bem claro que não me quer aqui. Ou será que é um feitiço da bruxa do pântano? Se ela quer brincar de esconde-esconde, eu nunca fui muito bom nisso.
Sir Jor terminou a frase com um grande sorriso no rosto, era frequentemente bem humorado mesmo em situações difíceis.
Ele era um homem já velho, com cabelos brancos e longos que caiam sobre seus ombros e uma barba branca e longa escondia seu pescoço, vestia uma roupa pesada de viagem que era elegante e de ar nobre,com um manto de viagem e um chapéu de abas largas, mas independente de como se vestisse ele era sempre lembrado pela falta do seu olho esquerdo.
– Vamos voltar Sir. A bruxa não deve morar por aqui, deve ser só uma lenda, não deve ter bruxa nenhuma nesse pântano.
Já seu escudeiro, Dorse vestia também uma roupa de viagem pesada, mas não tão elegante quanto a de Sir Jor. Tinha cabelos curtos de cor castanho claro, seu rosto tinha traços finos que o destacavam da feiúra de Sir Jor não importa em que cidade, Forte ou aldeia que fossem.
– Eu não sei o porquê você ainda insiste no treinamento de cavaleiro Dorse, você é medroso e pessimista. Sempre querendo desistir, sempre querendo voltar. Oque diferencia um cavaleiro das pessoas normais Dorse, não é seu título ou suas posses, mas sim a sua coragem. Sendo corajoso o titulo, posse e o respeito são dados a você naturalmente.
– Eu prefiro ser daqueles cavaleiros que só contam moedas Sir. No momento eu tenho que passar por isso com o Sir, mas quando o Sir me liberar do treinamento de escudeiro, eu vou ir viver a vida tranquilo com a mulher que amo. Ela me espera no forte Garra-além.
Sir Jor treinava Dorse a seis anos, desde que Dorse havia completado dez invernos de vida e nunca se acostumava com a sua covardia, talvez por Jor não querer que Dorse fosse covarde. Se não fosse amigo do pai de Dorse, o teria devolvido no primeiro mês de treinamento, mas amizades antigas pesam, e Jor se esforçou ao máximo para deixar o garoto afiado, mas Jor já admitia que não conseguiria nunca transformar o garoto em um cavaleiro de verdade.
– Se você demonstrar bravura dessa vez, talvez eu te liberte de seu treinamento.
Realmente queria se livrar de Dorse, logo falou a verdade, mas viu no rosto de Dorse que ele não tinha acreditado em suas palavras.
– Porquê estamos indo tão devagar guia?
O Guia de Sir Jor e Dorse era um homem baixo e de pernas arqueadas, vestia uma roupa de viajante, que era prática e quente. Eles haviam contratado ele no povoado que vivia ao redor pântano.
O guia se chamava Flint. E Flint parecia mais corajoso que Dorse aos olhos de Jor, na verdade Jor achava que aos olhos de qualquer um.
Jor conseguia perceber a ansiedade de Dorse de longe, na verdade Jor era bom e saber oque os outros pensavam e sentiam, mas a covardia de Dorse era tão evidente que até um cego veria suas pernas bambas. O lugar todo era úmido, lamacento, sujo e sombrio admitia Jor. Mas era um pântano, e se não fosse desse jeito não seria um pântano.
Flint apertava os olhos para enxergar na neblina, além de constantemente olhar para o céu é tentar ver o sol, para sempre tentar saber onde ficava o Norte.
– E Então guia? Falta muito?
– Pare de importunar o rapaz Dorse, ele está fazendo o melhor que pode, não está vendo que a neblina está espessa? Temos sorte de pelo menos ele ter aceitado vir conosco, porque todo o resto dos guias amarelaram lembra?
– Desculpe Sir, é que nós ja estamos neste maldito pântano desde o amanhecer, já está quase de noite e nada de encontrarmos a tal bruxa.
O grupo já havia viajado muito tentando ir o mais direto possível ao coração do pântano, que onde se dizia que a bruxa vivia. Passaram por árvores de raízes da altura dos cavalos, por poças que se pisassem iriam afundar sem nunca mais ver a luz do dia, todo o lugar parecia vivo com plantas trepadeiras limo e musgos por todo o canto. Nunca conseguiram seguir totalmente reto porque paredes de plantas estavam por toda a parte, o chão nunca era seco e para completar tinha a névoa que já estava tão espessa que mal dava pra enxergar a mais de 5 metros a frente, Jor não conseguia entender como Flint se guiava ali, era um pântano selvagem e inóspito. Perfeito para se esconder de qualquer um. Porque qualquer um com o minimo de sanidade não entraria ali.
Um silêncio repentino pairou sobre eles, e um suave barulho veio de longe.
– Vocês ouviram isso?
Disse Flint com o sotaque forte do povo do pântano.
– Venham para cá.
E o guia comandou seu cavalo para trás de umas árvores que cresceram uma perto da outra. Jor e Dorse fizeram o mesmo.
Flint procurou entre a neblina e apontou.
– Olhem lá.
Era uma luz ao sul. Uma luz andando no meio da neblina, como se estivesse voando.
– É um fantasma? Algum tipo de fogo fátuo?
Ao primeiro sinal de perigo, o senso de sobrevivência exagerado de Dorse entrava em alarme.
– Provavelmente não. Eu aposto que são outras pessoas no pântano, geralmente os forasteiros usam lanternas pra melhorar a visibilidade na neblina, mal eles sabem que isto costuma atrair os predadores e os fantasmas. Acho que são bandidos nos seguindo. Só vejo uma luz, provavelmente devem estar em seis ou menos.
Flint olhou novamente para a luz atentamente e com desconfiança.
– Vocês acham que poderia ter algum mensageiro pra vocês? Ou seria alguém impedindo a viajem?
– Não pode ser um mensageiro, eu não falei para ninguém aonde estava indo. Então quer dizer que seria perfeito para alguem tentar uma emboscada. Óbviamente alguém que me seguiu até aqui e sabe onde estou.
Jor era desconfiado apesar de bem humorado, sua máscara de sorrisos escondia uma mente rápida e treinada, com grande reputação como comandante de batalha. E era por isso que nunca conseguia um maior posto militar, não tinha a etiqueta e a paciência que os nobres que adoravam a manipulação esperavam dele.
– Eu vou investigar. Fiquem aqui.
– Mas Sir. Você vai sozinho?
Jor sentia de longe que Flint o guia, era um sobrevivente e caçador e não um guerreiro.
– Não se preucupe não pretendo lutar com eles, só vou observa-los mais de perto e ouvir um pouco da conversa deles.
– Como Sir?
– Eu tenho meus próprios meios.
– Cuidado Sir.
Disse Dorse em óbvia voz apreensiva.
Jor tirou o chapéu de abas largas e o deixou em seu cavalo. Ajeitou seu cinto da espada que continha sua velha espada longa, desceu do cavalo e desapareceu na neblina em direção a luz flutuante da lanterna.
Jor já era veterano de incontáveis lutas, e já sabia instintivamente oque fazer. Mas o real trunfo de Jor era que ele não era um cavaleiro comum, ele tinha conhecimento nas artes místicas. Apesar de não ser um Conjurador muito versátil, Jor tinha conhecimento mágico para afetar a coisa que mais presava em si mesmo; a mente.
Antes de chegar perto Jor fez um símbolo com a mão direita, nesta mãohavia um anel, sua ferramenta de ampliação mágica. Assim como guerreiros precisam de armas, as artes místicas precisavam de ferramentas para intensificar seus efeitos, o anel é uma delas. Tal gesto era para ativar um Feitiço de ampliação da sua Percepção, Jor queria escutar mais longe e enxergar melhor mesmo na neblina, aquele era um feitiço simples já usado incontáveis vezes, Jor se concentrou somente por um instante em seus olhos e ouvidos e já ouvia e enxergava como um dos predadores do pântano.
Porém a quem pense que a magia faz efeitos fantásticos e se manifesta ostensivamente para mostrar a todos que ela existe e oque pode fazer, mas é justamente o contrário, a magia nunca se mostra, a não ser em último caso, o gesto que Jor fez foi apenas um direcionador, ele poderia canalizar melhor o seu feitiço com palavras, mas não o fez, não queria chamar a atenção de seus perseguidores, não é a magia que é visível, mas sim os efeitos que ela provoca. E é por isso que existem tantos charlatões por aí dizendo que são arquimagos, ninguém pode provar o contrário, somente uma outra pessoa versada nas artes místicas.
Jor fez outro gesto estranho com a mão direita e se aproximou deles. Seus ouvidos já bem de longe conseguiam ouvir a conversa deles, mas com o segundo feitiço que lançara podia se aproximar de modo seguro. Viu que eram cinco soldados e o do meio parecia o de maior patente, um cavaleiro.
– Sir essa neblina está dificultando demais, e com essa luz eles irão nos ver antes de vermos eles. Não seria melhor pegarmos eles quando eles voltarem?
Disse o soldado que guiava eles, o primeiro da fila.
– Não seu idiota, se não acharmos eles antes Jor vai conseguir oque quer nesse pântano e eu não sei oque é, mas nosso trabalho é impedir isso acontecer. Dizem que ele é protegido por fantasmas, e fantasmas tem medo de luz, por isso a lanterna.
Jor riu, alem de se lembrar das palavras de Flint sobre a luz, ele se deleitava com o medo dos ignorantes, Jor queria gargalhar de rir, mas se segurou. Queria ouvir mais de seus perseguidores então continuou a segui-los, logo atrás do último da fila, e nenhum deles fazia a menor idéia de que Jor estava ali, ignoravam ele como se ele não existisse.
– Quando encontrarmos ele vocês devem tentar atirar com os arcos e flechas o máximo que puderem, se deixarem ele se aproximar será o nosso fim.
E Jor mais uma vez quase gritou de rir, chegou a envergar pra frente ao segurar o riso, mas tinha que ter foco, fez outro gesto com a mão direita e o cavaleiro ouviu em sua mente a voz do soldado com a lanterna.
“Devemos captura-lo ou mata-lo senhor?”
– Pare de ser medroso, já falei várias vezes que devemos captura-lo. Devemos mata-lo somente como última opção.
Os soldados olharam para o cavaleiro com olhar de quem não havia entendido nada, porque ele respondeu uma pergunta que ninguém havia feito?
E Jor já tinha ouvido o suficiente.
Eles eram captores mandados de alguém ou caçadores de recompensa, não importava, tinha que dar um jeito neles.
Com uma mão puxou o último da fila que instantaneamente o viu, a magia deixou de fazer efeito depois que ele o tocou. Jor levantou a espada rapidamente e a desceu em um golpe que cortou de surpresa o pescoço do soldado azarado. Seu corpo caiu no pântano, com a mão segurando o pescoço e se arrastando tentando evitar o rio de sangue de sair do seu corpo, ao se arrastar acabou caindo em um dos buracos alagados e desaparecendo, camuflado pela sujeira, plantas e água do pântano.
Os soldados restantes e o cavaleiro só ouviram o barulho do corpo de seu companheiro caindo no chão molhado do pântano, olharam para trás em direção ao barulho. Não viram nada a não ser neblina, a maldita neblina.
Jor não ria mais, nunca se divertiu em matar ninguém.
Os soldados ficaram apreensivos, um dos seus companheiros sumiu sem mais nem menos e eles não encontraram o alvo de sua perseguição.
– Onde está o John Sir?
Perguntou o obviamente mais medroso. Infelizmente isso fazia Jor se lembrar de Dorse.
-Vamos voltar Sir. Acho que nós irritamos os espíritos do pântano. Ou pode ser a bruxa avisando que nós não somos bem vindos.
Jor esperou ele brigarem entre si e quando ele fizeram um círculo para discutir se ficariam ou não no pântano, Jor foi por trás do cavaleiro e líder deles, puxou sua faça da cintura coma a mão esquerda e fincou a faca precisamente entre os dois ossos do ombro direito do cavaleiro, que se dobrou de dor para frente, caindo de joelhos no chão molhado do pântano. Por alguns segundos os soldados viram Jor, e ele estava ali diante deles, com somente um olho, a roupa respingada de sangue e com a espada na mão direita.
Com o líder derrotado e um companheiro desaparecido eles fizeram a coisa mais comum para alguem que dá algum valor a própria vida faria.
Eles correram, e muito rápido por sinal, Jor sempre se surpreendia como o mede e a necessidade sempre eram os melhores incentivadores para se fazer algo bem feito.
Jor sentiu um alívio ao vê-los fugindo, não queria matar todos, Jor não gostava de matar, os outros cavaleiros diziam que este era seu fraco, Jor era duro, mas não cruel. As vezes era duro demais admitia, mas as vezes tinha que ser. Jor tinha certeza de que se fossem outros cavaleiros em seu lugar, nenhum desses soldados teria escapado vivo. Na verdade sabia que o melhor a se fazer seria matar todos, mas sabia que não conseguiria fazer tal feito pois a neblina e os obstáculos naturais do pântano não permitiriam.
– É melhor que corram mesmo, assim contam a seu empregador oque aconteceu e derrepente ele se assusta é para de me perseguir.
Disse Jor em voz alta a ninguém especial.
Limpou a espada e guardou-a.
Pegou o cavaleiro ferido com às duas mãos puxando-o para cima.
– Dê pé.
O rosto sofrido pela dor, olhava pra ele com raiva e medo.
Pegou a espada que o cavaleiro tinha na cintura, que não resistiu, ele sabia que não tinha a menor chance contra Jor.
– Vai andando.
E Jor foi empurrando o cavaleiro ferido até a direção de Flint e Dorse, que por sinal andava a passos curtos, fazendo com que Jor tivesse que empurra-lo mais do que quereria.
Ao chegar a uma distância em que Dorse e Flint já conseguiam vê-lo, viu a surpresa dos dois por ter voltado com um prisioneiro e aparentemente sem nenhum ferimento.
– Eu dei um susto nos outros. Eles foram embora e não voltarão mais.
Mas esse aqui vai dizer oque queremos saber ou vai ser pior pra ele.
Disse Jor com seu costumeiro sorriso descontraído que não combinava em nada com sua aparência velha e sombria.
Tirou a faca do ombro do cavaleiro capturado e deu um pontapé repentino em suas pernas como em um único movimento fluído. O cavaleiro caiu no chão gemendo de dor e segurando o ombro perfurado.
Jor limpou a faca, a guardou na bainha em seu cinto e perguntou em voz tenebrosa e altiva para o cavaleiro.
– Quem te mandou me pegar?
Jor conseguia ir da descontração a tensão em um piscar de olhos, as vezes isso fazia o parecer maluco, oque era bom as vezes, mas na maioria das vezes gerava desconfiança em quem vivia muito tempo com ele.
– Sir, com todo o respeito, sabe que prefiro a morte antes de falar algo para o inimigo e trair minha lealdade para com meu contratante.
– Com Todos o respeito Sir – Respondeu Jor com sarcasmo disfarçado de seriedade. – Todos dizem isso antes de perderem todos os dedos da mão.
O olhar do único olho de Jor era amedrontador. E Jor viu que algo quebrou dentro do cavaleiro.
– Mas que garantia eu tenho de você não fazer isso mesmo depois de eu falar Sir?
– Simples. Eu já poderia ter feito sem perguntar nada, e só depois de eu ter reduzido seu orgulho de cavaleiro a migalhas eu perguntaria. Mas não quero isso. Porque eu tenho pouca água aqui e sangue demora muito pra lavar.
O único olho de Jor não vacilou em nenhum momento com sua ameaça, não se mostrou sarcástico nem brincalhão, ele falava sério, tão sério quanto as palavras que disse para se declarar a única mulher que amou.
– Quem me mandou foi Sir Brandel, de Garra-além.
Aquilo chocou Jor, Garra-além era seu lar. Conhecia Brandel e sempre soube que ele não possuía boa índole, talvez ele estivesse recebendo ordena de outra pessoa, ou tivesse feito a caçada buscando tirar um rival do caminho a ascenção na hierarquia. Quando voltasse iria torturar Brandel prazerosamente até obter as respostas que queria.
Dorse e Flint ainda estavam calados e surpresos com a situação, não conseguiam agir diante daquilo.
– Obrigado Sir. Agora me dê o seu pescoço e morra com coragem.
– Já perdi minha honra Sir. A coragem já não faz mais diferença.
Mas o cavaleiro ficou de joelhos e mostrou seu pescoço mesmo assim.
– Afastem-se.
Dorse e Flint deram três passos para trás.
Jor levantou a espada sobre a cabeça e a desceu de modo firme e decidido. E com um único golpe fluído a cabeça do cavaleiro sem honra foi separada de seu corpo. Fazendo o sangue se misturar com as águas do pântano que já eram tão negras que o sangue mal alterou a sua cor.
Jor mais uma vez limpou a sua espada, a guardou e foi em direção ao seu cavalo, que estava impaciente diante da cena de violência. Cavalos de guerra ficam facilmente inclinados a violência quando a vêem.
– Não sei se virão mais deles, temos que nos apressar.
Disse Jor com a voz firme.
Dorse e Flint subiram nos cavalos e seguiram adiante sem dizer uma palavra. Jor conseguia ver que Flint não era acostumado a violência e sabia que Dorse sempre agia acuado quando via sangue.
Jor esperou eles irem na frente e então fez mais um gesto mágico para encantar Flint com a ampliação de sentidos que havia feito em si pouco tempo atrás.
Jor não gostava de usar seus feitiços em outras pessoas, preferia que ninguém soubesse que ele tinha tais dons, este era seu trunfo. Ele era conhecido como o cavaleiro fantasma, porque ninguém compreendia como certas coisas aconteciam quando ele estava por perto. Eram os feitiços de Jor que fazia as coisas acontecerem, mas ninguém sabia disso, a não ser é óbvio, outro usuário das artes místicas que pudesse pressentir isso em Jor. Oque não era muito comum. Jor já havia enganado muitos outros Conjuradores com seus feitiços, nem seus filhos sabiam de seus dons mágicos, os únicos que sabiam era sua esposa e seu mestre. Mas mesmo não gostando de usar seus dons em outros, se viu sem escolha e usou seu feitiço no guia, na verdade não tinha garantia de que não haviam mais perseguidores por aí, e não tinha tempo para um interrogatório longo, por isso foi direto ao ponto.
– Eu confio na sua capacidade, acho que você precisa confiar mais em si mesmo, nós vamos conseguir achar o caminho mais rápido do que imagina.
Disse a Flint.
E o guia olhou para Jor com admiração, mas também não era pra menos, alguém lhe fala que você é capaz e derrepente você se torna capaz. ” Ele deve achar que sou o melhor líder do mundo” pensou Jor.
Não haviam usado o feitiço em Flint antes porque queria poupar a sua energia mágica para caso precisasse, afinal ele não sabia oque iria encontrar no pântano e quando se lança e mantém um feitiço de longa duração a sua energia mágica fica presa ao feitiço, “alimentando-o”.
Depois de alguns minutos de cavalgada silenciosa Dorse se dirigiu a Jor.
– Sir, porque matou o cavaleiro mesmo depois de ele ter falado oque queria?
Jor estava surpreso com a pergunta de Dorse, geralmente os covardes não pensam no próximo, são mais egoístas . Talvez tivesse julgado mal Dorse todo esse tempo.
– Eu matei ele Dorse porque se ele ficasse vivo, ele daria um jeito de ficar mais forte e me matar. Quando você tira a honra de um pessoa, você cria um inimigo Dorse. E eu já sou calejado o suficiente para não deixar inimigos vivos para que fiquem conspirando contra mim. Apesar de que admito que Brandel me surpreendeu.
Jor viu no rosto de Dorse que ele estava analisando tudo aquilo, e parecia que algo tinha mudado dentro de Dorse. No final ele ter visto aquela morte fora uma coisa boa.
E o pântano continuava o mesmo, molhado, com neblina, árvores tenebrosas e o labiríntico. Mas agora que Flint tinha os sentidos ampliados em mais algumas horas eles encontraram a cabana da bruxa.
A cabana era feita de madeira e o telhado de feno seco e grama viva, bem espesso, foi construído dessa maneira provavelmente aguentar as chuvas constantes do pântano.
Já era de noite e fazia mais frio ainda ao redor daquele local. Jor levantou o chapéu de abas largas para ver melhor. Eles estavam a uns vinte metros dela, o guia tentou se aproximar.
Repentinamente deu um passo para trás com uma expressão de terror no rosto.
– Senhor por favor me dê o resto do pagamento, quero voltar. Eu não vou ir até lá.
Jor achou estranho o comportamento do guia que se provará mais corajoso que Dorse pelo menos. E então ele sentiu um arrepio na nuca e viu que na cabana havia um feitiço inscrito no topo da porta e que afetava os arredores da cabana.
O material do encantamento consistia em um crânio de um bisão morto e
duas madeiras ao lado desse crânio, elas estavam inclinadas em um ângulo de rampa que ia para o chão e dizia “O poder liberta e vos destrói. Tu és a própria maldição e benção”
Depois de ler as inscrições que estavam escritas nas tábuas com os símbolos da língua dos segredos, Jor percebeu que ali era também um local sagrado. A magia permeava aquele local, ele podia sentir. Jor também era versado em sentir as artes místicas, e conseguia sentir o poder que o local emanava. Agora entendia o porquê a bruxa escolherá aquele local, locais sagrados assim eram difíceis de serem feitos e mesmo assim não duravam para sempre e podiam ser facilmente fechados por quem entendesse do assunto. Porém erupções naturais de energia mágica eram raras, e ainda mais raras quando eram muito poderosas, a terra e a natureza continham Energia mágica, tudo possuía energia mágica, porém da terra poderia brotar energia mágica bruta. Que poderia ser utilizada por aqueles que soubessem manipula-la. Lógico isto tudo aos olhos de alguém que não é ignorante para os poderes invisíveis que fluíam dentro de todas as coisas. Para um guerreiro, camponês qualquer, escudeiro medroso ou um simples guia, isto era só uma cabana velha no meio de um pântano que tinha uma cabeça de animal na porta avisando que ninguém era bem vindo.
Jor deu um passo a frente, conseguiu adentrar na magia que afastava visitantes do local sem praticamente nenhum esforço, aquilo que estava escrito nas traves de madeira penduradas no teto da casa era um encantamento de medo, obviamente para afastar intrusos e pessoas indesejáveis. Achou que precisaria forçar a sua mente a superar o encantamento para poder entrar, mas a arma mais afiada de Jor era a sua mente e para ele o mêdo era NADA.
Não podia cancelar um feitiço de medo pré-existente como aquele, não tinha tais capacidades ainda.
– Vocês vão ter que esperar aqui, não irão conseguir adentrar no encanamento, desculpe Flint, não vou poder te dar o resto do combinado agora, vou precisar de você para sair do pântano, então se quiser o resto do pagamento vai ter que esperar.
Jor olhou novamente para a cabana, parou um instante e refletiu consigo mesmo, ele não era qualquer um, mas também sabia que não seria ninguém diante de uma poderosa bruxa. Por isso sabia que deveria ter cautela antes de entrar na cabana, a bruxa não gostava de visitas, afinal se gostasse, não estaria morando no meio do pântano e isolada. Jor tinha certeza de que não era bem vindo. Olhou para trás onde estava Dorse e o guia, não queria deixa-los sozinhos, mas era melhor pra eles, sem falar que teria que se preocupar menos dentro da cabana da bruxa, não sabia do que ela era capaz. Viu seu cavalo inquieto, nunca precisou amarra-lo, ele era obediente e corajoso, mais de uma vez salvara sua vida em momentos de necessidade. Mas achou melhorpedir para Dorse amarra-lo para caso precisasse de uma fuga rápida e tivesse fácil acesso a sua montaria. Parou um momento para pensar sobre o assunto… Mas não o fez, o cavalo era seu amigo fiel em suas viagens, tinha que confiar nele ou então estaria admitindo que estava sozinho, porque a bem da verdade é que não confiava na coragem de Dorse e nem no guia. Olhou novamente para a cabana, era hora de entrar. Andou os doze metros até chegar debaixo do teto onde tinha a cabeça do bisão. Não havia porta, somente um pano velho que era usado para bloquear a passagem.
Não entrou de uma vez, estava reflexivo e pensativo. Não podia irritar a bruxa, pensou, queria favores dela, então era melhor se anunciar antes de entrar e ter o máximo de polidez possível, mas também não adiantava em nada subestima-la, se ela não fosse poderosa o suficiente ele teria ido até lá a toa.
– Você já sabia o exato momento da minha chegada bruxa. A reputação de seus poderes é grande. Sou bem vindo diante da sua presença?
Sabia que não precisava de mais formalidades do que isso, ela era conhecida pelas suas capacidades de previsão do futuro, pelo qual ele mesmo tinha vindo aqui, nomes não eram importantes, títulos não eram importantes, ela sabia que ele viria. Precisava simplesmente dizer que chegou.
– Já que passou por cima do próprio medo é digno de entrar, meu ganancioso Sir.
Falou a voz doce e confiante da bruxa.
Jor empurrou o pano da porta para o lado e entrou na velha cabana. Lá dentro tudo estava em uma sombria luz baixa, deixando tudo mais amedrontador do que realmente era. O chão era de madeira e havia prateleiras de madeira pelas paredes de toda a cabana. Contendo pequenas mudas de planta, potes, ossos limpos e outras coisas que não dava pra ver na escuridão. A bruxa estava sentada com seu cajado em seu colo em cima de uma almofada que estava no chão e no canto da cabana. Também existia na cabana uma cama na outra extremidade, uma mesa com uma cadeira perto da cama, uma pilha de livros em cima desta mesa, e uma lareira com um caldeirão, localizada entre onde a bruxa estava sentada e a cama. Em algumas partes da cabana também existia inscrições dos símbolos da língua dos segredos, mas não significavam nada de especial, eram somente marcações de limites de feitiços.
Jor ainda estava parado logo depois da porta, cada movimento e cada palavra tinha que ser cuidadosamente escolhida, não porque temesse a bruxa, mas sim porque não podia correr o risco de ter vindo tão longe e ela o rejeitar.
– Sua cabana é muito humilde em comparação com a sua reputação.
– Eu gosto dela assim, não sou mais importante do que ninguém nas linhas da história. Além disso, ser humilde chama menos a atenção das pessoas, e é isso que eu quero. Viver no pântano como alguém invisível.
– Sabe que eu vim aqui pelo seu dom de prever o futuro não é? Ou eu deveria procurar alguém mais poderoso?
Falar que não eram capazes de fazer algo sempre deixava os bruxos irritados, Jor sabia disso com a convivência com seu mestre. E jogou a isca para que sua vontade fosse atendida.
– Não há necessidade Sir. Qualquer um que enfrenta seus próprios medos merece um vislumbre de sabedoria. Sente-se aqui.
Indicou uma outra almofada a sua frente e desocupada.
Jor tirou suas botas sujas, sua capa suja e seu chapéu de abas largas revelando seu rosto velho e caolho. Mas seu olho que restará mostrava determinação e atenção.
Depois de se livrar das roupas que poderia sujar a cabana já suja da bruxa, ele adentrou e foi até a almofada e se sentou de pernas cruzadas diante dela. Jor não conseguiu deixar de reparar que mesmo não sendo tão jovem, era linda e imponente, com seus cabelos ruivos e olhos verdes. Qualquer homem comum seria dominado por aqueles olhos, homens tolos sairiam em viagens por aqueles olhos, matariam outros homens por aqueles olhos, fariam guerra por aqueles olhos. Mas não era só os olhos que davam beleza a ela, ela toda parecia esculpida para destruir a sanidade soa homens com lábios sedutores e pele sedosa e lisa. Mas oque mais impressionava é que mesmo tão linda ela não parecia nada frágil, parecia forte e indomável, um mistério que qualquer homem iria querer descobrir.
Mas não foi ali para corteja-lá e sim para receber respostas, focou sua atenção nos olhos da bruxa.
– Você parece muito jovem para a sua reputação, normalmente a magia exige muitos anos de prática para que o usuário se torne um mestre. –
Palavras amáveis para amansar a fera selvagem.
– Não sou tão jovem quanto pareço.
Jor olhou ela atentamente por alguns instantes, inclinou o rosto para demonstrar certa estranheza é surpresa.
– Você é bonita de verdade mesmo ou já me encantou com algum feitiço e eu não percebi?
E Jor soltou seu sorriso descontraído costumeiro.
A bruxa se levantou com seu cajado e foi em direção a lareira, que tinha fogo baixo. Depois girou e olhou para Jor, com o Fogo camuflando o vermelho de suas bochechas ou seria a luz do Fogo que teria deixado ela vermelha?
Jor como um usuário de ilusões, sabia que as vezes nós víamos oque queremos ver.
– Não veio aqui para ficar me bajulando Sir, vejo que se diverte com isso, mas já vi em seu passado que outra bruxa já prendeu seu coração, ou eu estaria errada?
Um contra-golpe.
– Sim é verdade, mas é difícil não comentar sobre sua beleza ao chegar tão perto.
E prestou atenção nas curvas do corpo dela, que ficavam evidentes mesmo naquele vestido largo porém de cintura justa, foi inevitável não pensar em como o corpo dela seria formidável e voluptuoso sem roupa.
– Eu já sei onde isso vai dar Sir, e apesar de eu gostar do que vi na minha visão. Eu não vou deixar que aconteça. Eu prevejo o futuro, mas isto não quer dizer que o futuro não possa ser mudado, eu mudo minhas escolhas e o futuro que eu vi não existe mais.
Jor percebeu que não adiantava mais continuar com aquele joguinho, apesar de se orgulhar que mesmo sendo velho, caolho e feio nenhuma mulher havia conseguia fugir da sua mente astuta. Ele não estava ali para corteja-lá, recordou, estava ali para saber seu futuro. E mesmo assim não iria fazer nada com a bruxa, ele já amava uma mulher, e nenhuma mulher pareceria tão bonita quanto sua amada para ele. Estava só elogiando ela para amansa-la. Oque pelo visto não fez muita diferença.
– Desculpe se te irritei, é que estava inseguro se você realmente iria dizer meu futuro ou não.
Jor podia iludir quem quisesse com seus feitiços, mas ela era uma bruxa poderosa e utilizar as artes místicas de qualquer tipo contra ela poderia irrita-la e isto era oque ele não desejava. O melhor a se fazer seria ser sincero.
– Não te direi oque quer saber Sir, direi apenas oque o Destino sabe. Oque molda o nosso futuro são as nossas escolhas No passado e no agora. E já lhe aviso de ante mão, no momento não quero nada, mas um dia eu irei querer e nesse dia irei te procurar para cobrar.
A bruxa foi até a mesa e pegou uma faca.
– Corte um pedaço de seu cabelo e me dê. Irei usa-lo no feitiço.
Jor sabia que aquilo era para o sacramento, o sacrifício ritual da magia. Apesar de cortar uma mecha do cabelo facilmente, entregou a mecha para a bruxa com certa cautela, também sabia que partes do corpo de pessoas também poderiam ser usadas para lançar magias que utilizavam o vínculo mágico, principalmente o cabelo, unhas e o sangue.
Quando deu a mecha de cabelo para a bruxa que logo em seguida balançou a cabeça levemente, a abaixou e depois levantou. Estava em transe, não enxergava mais oque havia diante dos olhos, mas sim o futuro e o tempo.
E então Jor começou a sentir a energia mágica fluir e se manifestar.
Era um redemoinho de poder que estava se transformando. Vinha lá de fora, adentrava a cabana e circulava ao redor deles, sentia como se tudo ali estivesse conectado. Debaixo deles a terra emanava poder, a lua crescente lá fora emanava poder, os objetos nas prateleiras emanavam poder, as inscrições nas paredes emanavam poder.
Ainda com o poder místico e invisível rodeando eles a bruxa pegou a mecha de cabelo de Jor e a joga no fogo, que sombriamente reagiu ficando mais forte e alto, como se tivesse gostado da refeição.
– Me dê a sua mão.
Falou agora com uma voz ressoante e fantasmagórica.
Jor entregou a sua mão para a bruxa sem hesitar. Ele ainda estava sentado, e dessa vez ele tinha a espada no próprio colo, enquanto ela estava em pé, com uma das mãos segurando a sua e a outra mão segurando o próprio cajado.
– O que desejas saber sobre seu futuro?
– Quando eu morrerei bruxa?
Ela ficou alguns segundos olhando ligeiramente para cima e disse;
– Você morrerá quando for capturado pelo exército do seu verdadeiro inimigo, aquele que se escondeu de você desde a sua infância.
– Como eu morrerei?
– Depois de ser capturado, será preso em uma tora de madeira e então será torturado, maltratado e perfurado. Mas somente quando aquele que o capturou tentar provar o gosto da vitória humilhando-o, você se soltará, e o matará com as próprias mãos, depois disso roubará a arma de de um inimigo próximo e matará muitos mais.
Parecia uma boa morte para Jor, porém depois de tanto tempo em treinamento constante gostaria de saber se sua mente estaria preparada para a morte.
– Uma morte de digna? Minha mente quebrará?
– Não irá sucumbir Sir, Você matará muitos, sempre sem hesitar. Indômito, inabalável, sua vontade é inquebrável. Mas seu corpo ainda é de carne, sua mente nunca o trairá e nem sentirá medo ou remorso, mas seu corpo será derrotado. Não posso julgar se será uma morte digna. Mas com certeza impressionante e memorável.
– E meus filhos? Eles também morrerão?
– Todos morrerão um dia.
Uma pergunta meio idiota Jor pensou consigo mesmo, o futuro sendo visto era o seu é não os de seus filhos.
E então pensou se sua reputação seria conhecida, se seus filhos riam se recordar dele.
– Eu serei lembrado?
A bruxa parou um instante, e com pesar na voz disse:
– Não. Nunca lembrarão de você, a não ser seus filhos. O fantasma que você foi em vida, ninguém verá depois de sua morte, seus filhos terão grandes feitos e por isso os seus próprios serão ofuscados. As vezes será lembrado como o pai de pessoas que tiveram grandes conquistas, mas as suas próprias nunca mais serão citadas.
Os olhos dela pareciam vê-lo agora, seu rosto não parecia mais Levemente avermelhado.
– O futuro parece cruel comigo bruxa, existe algum modo de muda-lo para mim?
– Já é tarde demais Sir.
Jor obteve as respostas que queria. Estava aliviado que sua mente nunca quebraria nem mesmo diante da morte sem retorno, mas triste pelo oque o Destino havia reservado para seus registros. Nunca ser lembrado é muito triste para um guerreiro, pelo menos seus filhos não o esqueceriam.
E derrepente não se sentiu tão mal, tirou um peso de seus ombros.
Refletiu parado por alguns segundos.
– Agora eu entendi bruxa, eu treinei a minha mente todo esse tempo para me libertar de tudo que eu tinha medo de perder. Obrigado irei arrumar um jeito de agradecer.
– Quando for a hora certa eu irei cobrar.
– Ainda não sei seu nome.
– Rhida.
Jor saiu da cabana, leve, e com vontade de abraçar a sua amada como nunca fizeram antes. mas se viu cercado por um exército que estava fora dos limites do encantamento de medo, ninguém conseguiu passar pelo feitiço, não estava vendo nem Dorse e nem Flint, era a hora de desaparecer, fez um gesto com a mão direita para fazer a ilusão, mas ela não funcionou, percebeu que sua energia mágica sofreu um interferência externa, observou que no exército alguem com um cajado se moveu de súbito.
– Maldito.
Disse resmungando.
– Venha até aqui maldito, ou vamos transforma-lo em uma almofada de flechas.
Disse Brandel o comandante do exército.
Jor se viu se escolhas, andou até eles e foi despido de sua espada.
Mas não teve mêdo, um Destino que qualquer um consideraria ruim para Jor fora o melhor possível.
E assim foi capturado.

Fim do epílogo.

por Vinicius Velholobo

Você tambem pode ler este texto no Wattpad do Vinicius Velholobo